quinta-feira, 12 de maio de 2011

Poema concreto

Paralelepípedo

Da
Nostalgia
Fez
-
se
medo
de
que
talvez
tudo
acabasse
como
começou.

Da alegria
Fez
-
se
enredo
de
que
talvez
um
dia
se possa
entender
o que
passou.

O início já era...

Estamos no meio.

Você pode entender?!!??

Quando o momento pediu
A chance que você não me deu
Da boca a palavra não saiu
E o silêncio significou adeus

Você pode querer que eu modifique
Meu modo de pensar e que fique
Do jeito que você precisa
Mas o bom senso avisa
Que nada é do jeito que a gente quer
Nem da forma que o bom senso pede!
Todo mundo cheira, todo mundo fede...

Você pode dizer que o que eu falo
Está escrito nos livros que leio
Que o que declaro não sinto
Que o meu astral é baixo demais
E que o que eu faço não te satisfaz
E que eu minto e não te deixo em paz

Eu não to nem aí
O que eu queria
Ah, o que eu queria
Eu já consegui...

Fotos

http://photography.nationalgeographic.com/photography/photos/best-pod-january-09/

domingo, 8 de maio de 2011

Sobre o pequeno ensaio

É o texto de abertura da minha participação na coletânea que eu e o Antonio Rodrigues Loureiro (Toninho) organizamos em Itaí. A "Antologia Literária Itaiense". Resolvi publicar aqui por dois motivos. Ele serve também pra explicar o que me leva a escrever e ao mesmo tempo introduzirá alguns outros textos que abordarão minha juventude, adolescência...
Não sei ainda onde chegarei com o que escrevo. O objetivo principal é a publicação de um livro. Não tenho a menor pressa. O que quero é continuar sentindo o mesmo prazer que senti quando escrevi meus primeiros poemas e minhas primeiras letras de música. Algumas musicadas por meu amigo Jatir serão postadas mais a frente...

Pequeno ensaio sobre a simplicidade

A primeira vez que resolvi escrever um texto foi de repente. Passava na televisão um documentário sobre o jogador Garrincha, e apaixonado pelo futebol senti a inusitada necessidade de escrever algo. Escrevi um poeminha onde repetia o apelido dado ao atleta por Armando Nogueira, “pássaro de pernas tortas” e dizia que ao jogar tentava imitá-lo. Era uma mentira porque até então eu não o conhecia, mas havia esse sentimento de melancolia por não conhecê-lo e pela vida dele ter sido tão difícil quanto sua genialidade. Ah, e eu estava por me mudar de cidade (de Avaré para Itaí) e isso estava me torturando. Expressar essa melancolia foi talvez o que tenha me levado a escrever.
Escrever é libertação. Desde então quando não entendia tanto o que eu sentia me debruçava sobre uma folha de caderno e escrevia. Depois ao ler acabava me entendendo melhor. A poesia é algo que muitas vezes vem sem muita explicação. Para mim serve para representar de forma instantânea o que eu sinto em determinado momento. Registro o que sinto e isto ajuda a entender o que penso e o que faço. Hoje lendo a maioria de meus primeiros poemas vejo o quanto era ingênuo e finalmente consigo perceber a importância de meu amadurecimento. E para quem lê? Qual a importância dos meus sentimentos para quem apenas lê?
A primeira vez que ouvi a música “Há Tempos” da Legião Urbana foi inesquecível. Eu me encontrava em excursão com minha turma de escola na cidade litorânea de Caraguatatuba e enquanto eles brincavam num lago em frente a um barzinho eu os observava ouvindo o que tocava na rádio do local. O locutor anunciou a nova música de minha banda preferida da época – 1990 – e logo nos primeiros toques, nos primeiros versos aquela música me passou uma alegria que explicava tudo o que eu sentia naquele momento. Talvez eu esteja tentando ser entendido de uma forma um tanto difícil. As letras de Renato Russo foram escritas em cima de tudo o que ele sentia e entendia. A gente ouve, lê e também sente e entende. Assim é com a poesia que escrevemos em torno do que sentimos e entendemos que outros lerão, sentirão e entenderão.
Posso parecer presunçoso, mas, proponho uma troca de informações: ao escrever o que sinto e o que penso pretendo ser lido para que você na sua solidão tenha o mesmo estalo, a mesma descoberta e a mesma sensação que tive ao ouvir a canção da Legião. Lá naquele dia de sol enquanto os gritos de alegria de meus amigos ecoavam, eu ouvia os versos que dizem até hoje coisas tão verdadeiras e que embora estejam numa letra de uma música não deixam de ser poesia. Um de meus poemas presentes nesse livro foi feito naquele dia e até hoje ao lê-lo tenho a incrível sensação de alegria sentida naquele momento.
A literatura é isso: intensa troca de informações pessoais e os pensamentos que externamos através dela nos faz incrivelmente mais fortes. Quem lê com certeza está quase sempre tendo a chance de comparar o que vive com o que é vivido por quem escreve ou pelos personagens criados pelos escritores. Então peço atenção ao que escrevo e se possível se me encontrar na rua e quiser conversar a respeito, esteja à vontade amigo leitor. Sou eu por inteiro fazendo algo de que não consigo me desvencilhar. A literatura para esse ser aqui é tão forte quanto à disposição que sinto em querer que o meu futuro seja o melhor possível.

sábado, 7 de maio de 2011

Outdoor

É melhor
Não fazer errado
Para não querer repetir.
É melhor
Ouvir tudo de novo
Para não querer ensinar.
É melhor
Não perceber os detalhes
Para não querer recriar.

É pior
Saber profundamente
E não poder discutir.
É pior
Acreditar piamente
E não conseguir refletir.
É pior
Entender quase tudo
E não poder usar.

E além do que
Quem não se arrepende
De dizer verdades??

Conto

Uma noite comum num dia qualquer


E vem de novo meio cambaleando. Será que ele só me quer quando está bêbado? Fiz que não ouvi... Então ouço seu andar encumpridado.
Quer ficar comigo?
Assim na lata fica difícil. Já não tô muito querendo e ele vem sem romantismo, tá pensando o que?
E aí... Não vai responder?
Ah meu saquinho. Ta bom, já que você tá procurando, que seja:
Você vive bêbado e quer ficar assim sem nem mesmo se curar antes. Dá um tempo ô... O que você tá pensando? Eu não sou uma qualquer
Falei olhando para um cachorro na esquina. Saiu tudo de uma vez, o cachorro acordou, me deu uma boa olhada e fechou os olhos novamente.
Aí o Du fez uma coisa que eu não esperava: deu pinote, saiu de banda.
E fiquei assim sem eira nem beira.
Pensei em voltar atrás. Mas e o medo dele me dispensar de vez. Abaixei a cabeça e quase pisei na merda do cachorro, desviei sem olhar pra trás – morrendo de vontade de olhar – cheguei em casa... E não consegui dormir.
Fiquei pensando em seus beijos com gosto de cerveja. Em seus abraços suados. Em seu perfume barato.
E no quanto nos ensina a vida nas noites mal dormidas!

* * *

Olha lá, rapaz a Luana indo embora sozinha de novo. Ah, não vou resistir...
Mas cara, a gente acabou de levar aquelas duas embora e...
Larga mão! Ela já ficou comigo duas vezes desse mesmo jeito.
Então corra, cara. Eu vou embora...
Falou.
O que é que tá havendo. Ela fez que não me viu.
Aumento o passo então...
Quer ficar cumigo?
O que está acontecendo? Ela agora não fala nada. Apenas está com cara de brava. Será que ela sabe da Lurdinha.
E aí, não vai responder?
Aí ela fez uma coisa que eu não esperava: me esculhambou!
... O que você tá pensando, eu não sou uma qualquer.
O que me restou foi dar a volta com a consciência pesada de quem pisou na bola. Quase tropecei em um cão que dormia na calçada.
A Luana merece mais respeito.
Essa de tratar ela como resto não tá com nada.
Bom, tomei uma decisão: a partir de amanhã vou fingir que nem a conheço.
Cheguei em casa... Dormi sonhando com a Lurdinha...

* * *

Estávamos nós dois na madrugada voltando da noite, quando vi a Luana virando a esquina. Com aquele reboladinho lindo. Meu Deus, se eu tivesse coragem, juro que teria ido atrás dela!
Ah, não! O Duzão também a viu.
Olha lá rapaz a Luana indo embora sozinha de novo. Ah, não vou resistir...
Tentei dissuadí-lo:
Mas, cara, a gente acabou de levar aquelas duas embora e...
Larga mão! Ela já ficou cumigo duas vezes desse mesmo jeito.
Decidi apoiá-lo só para ver se ele desistia, pois ele sempre gostou de ser do contra:
Então corra, cara, eu vou embora.
Falou.
E ele foi. Ele não deixou de ir... Foi...
E eu fiquei perdido.
Sempre gostei da Luana. Nunca tive coragem de chegar. E o Duzão com o seu jeitão grosseiro fica com ela a hora que quer.
Fui embora. Em casa tomei um sal de frutas e fui dormir. Liguei o rádio. Fiquei pensando na Luana e sem querer imaginei o Duzão a beijando.
O pior é que sei que a coisa não vai ficar só nos beijos. O pior é que ele vai passar a mão nela... Está com umas a mais na cabeça mesmo... E vai que é isso o que ela quer, ficando com ele a essas horas.
Mas não quero imaginá-la como uma qualquer.
É ele que é um babaca. Amanhã, nem vai olhar pra ela. E isso é o que é pior. Tentei pensar em outra coisa... Na Jussara...
Mas não consegui!
De repente me veio que poderia ter chegado antes do Duzão.
Poderia ter sido mais corajoso.
Assim quem sabe eu estaria no lugar dele. Só que tenho que esquecer... Eu vou esquecer... Decidi: a partir de amanhã nem olharei mais para ela...
Na janela, os primeiros raios de sol anunciaram um novo dia. Um novo domingo. Foi só mais uma noite perdida em meio a mais uma vida qualquer...

“Nirvana”.